quinta-feira, 25 de junho de 2009

Uma corrida pela água

Washington Novaes - O Popular - 18/06/09

Segundo as notícias (O POPULAR, 29/5), faltam menos de três meses para o fechamento das comportas e o início do armazenamento de água na barragem do João Leite, planejada para abastecer a região de Goiânia até 2025. Será “uma espécie de caixa-d’água da cidade”, como a definiu o engenheiro Antônio Gusmão, que fiscaliza essa represa de 53,3 metros de altura, parte de uma obra que custou R$160 milhões e inundará 1.040 hectares (a comparação que se costuma fazer é com um campo de futebol, que em média tem um hectare, 10 mil metros quadrados).

Com prazo tão curto, é preciso correr e juntar esforços de governo estadual e prefeituras dos nove municípios da bacia para articular e executar um plano de recuperação e manejo da bacia do João Leite, já que “cerca de 90% das 150 nascentes da bacia estão desprotegidas ou sofrendo graves ameaças” (4/6). E esses problemas, segundo levantamento da Delegacia Estadual do Meio Ambiente, incluem lançamento de esgotos sem tratamento; derrubada de matas ciliares e suas consequências (erosão, sedimentos carreados para a água); poluição por uso intensivo de agrotóxicos, principalmente em plantações de tomate; despejo de resíduos de criações de porcos e bois; lixões em áreas de nascentes. A delegacia indiciou 40 pessoas por crimes ambientais. E verificou que só a nascente principal, na Serra do Sapato Dourado, em Ouro Verde, foi recuperada, embora exista no papel desde 2002 uma Área de Proteção Ambiental que engloba sete municípios (Teresópolis, Goianápolis, Campo Limpo de Goiás, Ouro Verde, Anápolis, Nerópolis e Goiânia).

Se não se correr, os riscos são altos, como demonstrou recentemente – e foi comentado neste espaço – o professor Galizia Tundisi, um dos maiores especialistas brasileiros e mundiais em recursos hídricos. O custo da água para a população pode multiplicar-se até por cinco, principalmente se se levar adiante um projeto de pólo de turismo e hotelaria às margens da represa. Também ele enfatizou: a barragem não deve ser nada além de uma caixa-d’água para Goiânia. E se é assim, além das ações práticas para remover as causas de poluição e assoreamento já existentes, é fundamental conceber e executar campanhas que coloquem a população beneficiada ao lado da recuperação e preservação do João Leite e do reservatório. O assoreamento pode reduzir em espaço curto de tempo a capacidade de armazenar água. Usos da água que não sejam para o abastecimento podem acarretar poluição química, por medicamentos e agrotóxicos, combustíveis, que podem encarecer muito o tratamento.

Não há tempo a perder. Nem se pode minimizar a questão dos recursos hídricos, já inserida numa crise de caráter universal, que vem sendo agravada pelas mudanças climáticas – inclusive em Goiás, onde os órgãos meteorológicos registraram, de abril a setembro de 2007, “grande anomalia climática negativa nas cabeceiras do Rio Paranaíba” e outra “anomalia” na bacia Araguaia/Tocantins (Conjuntura dos Recursos Hídricos no Brasil, Agência Nacional de Águas, 2009).

Segundo o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud), o consumo diário de água no mundo está em 20 milhões de litros anuais por pessoa, para atender a todas as necessidades (produção de alimentos e de energia, consumo residencial, industrial e em outros usos). Mas já há mais de 1,2 bilhão de pessoas sem acesso a água de boa qualidade, enquanto 2,5 bilhões não dispõem de saneamento básico; cerca de 1,8 milhão de crianças morrem a cada ano vitimadas por doenças veiculadas pela água; e até 2025, diz o Pnud, a “crise da água” atingirá 2,7 bilhões de pessoas. Muitos dos grandes rios do mundo já não chegam ao mar, por consumo excessivo e desvios – Colorado, Amarelo, Indus, Rio Grande, rios que corriam para o Mar de Aral e o abasteciam – entre muitos outros. O estoque de peixes nos rios e lagos do mundo caiu 30% desde 1970. 50% das terras úmidas foram drenadas ou degradadas ao longo do século 20. Com o consumo crescente de alimentos, intensifica-se o uso de água na agricultura e irrigação, que já consomem mais de 70% do total (menos de 20% na indústria, menos de 10% no abastecimento humano). Só na China, com o aumento do consumo de carne por pessoa (passou de 20 quilos anuais para 50 quilos em 25 anos), o uso de água para esse fim subiu para 390 trilhões de litros (correspondentes a 25 bilhões de quilos anuais de carne, ou 17 quilos por pessoa/ano).

Mas o panorama ainda vai complicar-se. Porque, pelos padrões atuais, serão necessários mais 60% de água para atender aos 2 bilhões de pessoas que se acrescentarão à atual população mundial até meados do século. E as necessidades poderão ser ainda maiores se as questões climáticas levarem a um aumento na produção de biocombustíveis derivados das biomasssas, já que estes precisam em média de mais de 2 mil litros de água por litro do produto.

Não podemos continuar descuidados porque temos no Brasil uma situação privilegiada, com quase 13% da água superficial do Planeta. Nossa água é distribuída desigualmente pelas regiões. Todas as bacias hidrográficas, da Bahia ao Sul, estão em “situação crítica”, segundo a ANA, por poluição, uso excessivo, conflitos. E continuamos a desperdiçar na média cerca de 45% da água que sai das estações de tratamento nas grandes cidades, por vazamentos, furos etc.

Não percamos tempo por aqui. Poderíamos começar cobrando por todos os usos de água na bacia do João Leite, como determina a lei. E aplicando os recursos nos trabalhos que têm de ser feitos, junto com recursos específicos do Estado e municípios da bacia.

Washington Novaes é jornalista

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